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19/09/2005 - O consultório da Internet (Parte II)

Revista Veja – Saúde Business

Nesse cenário proporcionado por pacientes abastecidos pela internet, as consultas ganharam mais tempo. Segundo os médicos ouvidos por VEJA, cerca de metade de uma consulta é gasta agora para esclarecer dúvidas trazidas pelos clientes. O problema é que, mesmo quando reúnem dados corretos, nem sempre eles dispõem de repertório suficiente para digeri-los. "Para convencer um paciente de que a informação que ele traz não deve ser interpretada daquela maneira, gasta-se mais tempo do que se leva para simplesmente tirar suas dúvidas", afirma o especialista em reprodução humana Edson Borges Júnior. O endocrinologista Geraldo Medeiros também põe o dedo nessa ferida. "É preocupante quando o paciente começa a ter muita informação, mas pouca capacidade de absorção de tudo o que lê", diz ele.

A exigência dos pacientes de uma troca mais intensa de informações com seus médicos está levando a que seja revisto o modelo segundo o qual o especialista simplesmente pede uma batelada de exames, sem que o cliente seja esclarecido sobre os propósitos dos procedimentos prescritos. Médicos que se comportam dessa forma podem ser acusados de má prática. Em países do Primeiro Mundo, os processos desse tipo calcados nas falhas de comunicação dos médicos já representam cerca de 70% das ações contra eles. No entanto, apesar de todos os avanços e da ameaça jurídica, a resistência à mudança permanece forte. Um estudo recente publicado no The Journal of the American Medical Association, o Jama, respeitada publicação científica americana, constatou que 72% dos médicos americanos interrompem a fala do paciente depois de apenas 23 segundos, em média. É bom ressaltar, contudo, que, assim como existem médicos pouco dispostos a ouvir e conversar, existem pacientes cuja maior doença é a inconveniência de falar em demasia. São aqueles que nunca estão satisfeitos com o que o médico lhes diz, e que ficaram ainda mais difíceis desde que descobriram o caudaloso manancial da internet.

A internet está ajudando a estabelecer um maior diálogo entre médicos e pacientes, mas não há informação colhida na rede que substitua a palavra final de um bom especialista. Palavra final que não significa, necessariamente, veredicto sem apelação. "O médico não é mais um deus impositivo que decide o que quer, sem ouvir o doente, e acabou", diz o infectologista David Uip. A boa relação médico-paciente é aquela em que o segundo, munido de todos os dados sobre seu problema, é incentivado pelo primeiro a pesar os riscos e benefícios do tratamento prescrito e a opinar sobre a alternativa mais adequada a seus anseios. "A decisão compartilhada, fruto de uma conversa franca, é a melhor solução para os dois lados, pois significa maior adesão à terapia e menor probabilidade de desentendimentos futuros", afirma o cirurgião cardiovascular Marco Tulio Baccarini Pires, de Belo Horizonte, diretor do site nacional da Bibliomed.

Infelizmente, nem todos os médicos entendem que "decisão compartilhada" não implica "transferência de responsabilidade". Há limites para o caminho aberto pela maior circulação de informações e pela crescente disponibilidade dos médicos para explicar e discutir seus pontos de vista. Especialmente nos casos mais graves. Pegue-se o exemplo de um oncologista que cuida de um doente de câncer de próstata. É importante que a pessoa esteja ciente de que, para tratá-la, existem três recursos: a radioterapia, a braquiterapia (radiação direta no tumor) e a cirurgia de extirpação. E saiba também que são variáveis os índices de sucesso e risco de cada uma das modalidades de tratamento. Mas daí a colocar a resolução nas mãos do paciente vai uma tremenda distância. Um artigo publicado em 2002 no Journal of Medical Internet Research, assinado por pesquisadores da Universidade de Illinois, em Chicago, enfatiza que os doentes querem estar bem informados sobre sua condição, sem que isso implique assumir responsabilidade integral pelo próprio tratamento. "O médico não deve abdicar de seu conhecimento, deixando que o doente decida tudo, com base nas conversas que este manteve no consultório ou nos dados que conseguiu em sites ou na imprensa", diz o cardiologista Protásio Lemos da Luz. "É como um piloto de avião dar a um passageiro o comando da aeronave." Para continuar na metáfora aeronáutica, podem-se adquirir noções de navegação aérea por meio de um bate-papo com um piloto ou via internet. Mas ninguém tira brevê dessa maneira.



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